Ando pensando muito nas adaptações do velho bardo para o cinema e resolvi assistir a versão de Roman Polanski para a amaldiçoada "peça escocesa".
Em Macbeth, o diretor utiliza com maestria o caráter sintético da mais breve tragédia de Shakespeare e constrói a narrativa sem rodeios, indo direto ao ponto central da ação da peça: a sequência sangrenta de assassinatos infames.
A carnificina que certamente levava o público elisabetano ao êxtase é relida em tom de grand-guignol que não ameniza a corporalidade dos assassinatos mas a traduz em efeitos realistas, próprios de uma abordagem cinematográfica. Sangue jorra aos cântaros, cabeças rolam, espadas atravessam os corpos sem pudores e sem concessões.
O surgimento do monstro da maldade, alimentado pelo veneno da ambição, surge numa atmosfera de horror. Uma variação da atmosfera que o diretor inventou em O Bebê de Rosemary, talvez ainda mais acentuada pelo medonho assassinato de sua então esposa, a bela Sharon Tate, por um bando de fanáticos religiosos comandados por Charles Manson, apenas 3 anos antes.
A ambientação é numa Escócia primitiva, brutal e selvagem. A chuva e a lama enfatizam o caráter depressivo e sombrio da fábula. Os nobres são guerreiros viris e bárbaros, que vivem um tempo de confusão entre a violência primitiva e a nobreza britânica de embalagem refinada.
As cenas com as bruxas são as melhores do filme, com destaque para a dantesca confraria que Macbeth encontra na charneca, quando volta em busca das Estranhas Irmãs para saber novas profecias. Um sabá macabro de bruxas nuas, misturando num caldeirão substâncias alucinantes que fazem Macbeth ver o futuro numa sequência de sonho psicodélico, envolvendo um parto cesareano e a célebre: "Não serás derrotado por homem nascido de mulher".
O fantasma de Banquo, o primo assassinado, também surge com potência visual na cena da festa, revelando a intimidade do diretor com a construção cinematográfica do medo, do sobrenatural e da perturbação psicológica febril (como em
Repulsa ao Sexo, em que a mente doente de Deneuve cria monstros e conduz ao assassinato).
O Macbeth de Jon Finch é complexo e crível, em seu acentuado sotaque escocês. A Lady Macbeth de Francesca Annis apresenta uma contradição interessante: em sua aparência feminina e frágil, guarda a dose de perfídia necessária ao convencimento de seu marido para os crimes que se seguem. Na narrativa a transição para a loucura da rainha é aos saltos, o que demonstra de certa forma um pensamento de conexão do diretor em relação à fonte teatral da história.

Na peça de Shakespeare Lady Macbeth aparece relativamente pouco, se formos levar em consideração a fama da personagem, e sua perturbação vai sendo enfatizada pela força de suas entradas: a cena do desmaio, o perverso monólogo em que ela clama ao demônio que tire sua sexualidade para que tenha forças para o crime, a clássica cena do sonambulismo na qual ela tenta lavar o sangue imaginário de suas mãos.
As tensões entre as duas linguagens ocorrem todo o tempo, ora pendentes à teatralidade ora buscando uma certa pureza cinematográfica da ação.
Muitas das ações extra-cena da peça são mantidas extra-campo por Polanski. Por exemplo, como na peça não vemos o suicídio de Lady Macbeth em si, o que parece tentador de ser filmado. Vemos uma cena de loucura da rainha, que antecede gritos de desespero dos castelãos, o relato de um dos serviçais e depois o corpo contorcido da mulher no pátio do castelo. Entendemos que a rainha se jogou da janela da torre, pondo fim à dor de consciência que a enlouquecia.
Mas em outros momentos Polanski consegue de forma criativa tensionar as duas linguagens, a teatral e a cinematográfica, de forma a obter resultados muito fortes. Por exemplo, no texto original, antes de encontrar pela primeira vez as três bruxas, Macbeth vence uma batalha sangrenta e politicamente importante. No texto teatral, a batalha é apenas citada. Na adaptação de Polanski a batalha é construída de forma sonora. Durante os créditos iniciais, depois da primeira profecia das bruxas, a névoa toma conta da tela e ouvimos os sons bizarros da batalha: espadas, cavalos, gritos lancinantes. Ao fim dos créditos a névoa se dissipa e vemos o árido campo de batalha cravejado de pedaços de corpos e moribundos em agonia. O horrível da cena se conecta com a força do som da sequência anterior o que produz um efeito primoroso de diálogo entre o material original de Shakespeare e a adaptação para a tela.
O ponto mais curioso desse tema é também o maior desafio em uma adaptação de Shakespeare para o cinema: o monólogo interior, elemento narrativo teatral por excelência.
Como não colocar o personagem simplesmente falando sozinho, sem ação que não seja verbal (como nas adaptações com Olivier por exemplo)?
Polanski lança mão dos textos em
of. O que no teatro é elocução, no filme é pensamento.O rosto de Jon Finch em primeiríssimo plano, seus olhos refletem seus pensamentos dolorosos enquanto o espectador, invandindo a mente do protagonista, escuta seus tormentos. Para enfatizar ainda mais essa opção em determinados momentos o personagem fala parte do texto e depois voltamos ao
of. Claramente a opção muda a perspectiva da construção das performances. Os atores interiorizam, literalmente, os monólogos. Falam por dentro e às vezes esses pensamentos explodem em forma de palavra.
É uma espécie de
pensamento em ação que resulta numa saída interessante para a adaptação, ainda que acarrete certas redundâncias interpretativas.
